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    domingo, 20 de março de 2011

    Chronos: Capítulo II–Reescrever


    II
    Reescrever
    Me levantei tentando entender o que havia acontecido. Não sabia como tinha chegado ali. As últimas coisas de que me lembrava érea de estar no escritório e de repente aquele relógio estranho começou a pulsar e tudo se distorcer. Será que eu havia parado ali por causa dele?
    O procurei nos meus bolsos, na mochila, mas não o encontrei. Talvez ele tenha caído na floresta, no meio das folhas que cobriam o chão. Procurá-lo seria complicado, pois as árvores eram altas e tinham uma folhagem densa, que não permitia que a luz entrasse. Não havia sinal de trilhas. Era como se nenhum humano jamais houvesse pisado ali. Algumas árvores haviam sido derrubadas, não por máquinas, mas aparentemente por algum animal grande e com garras afiadas.
    Aquele lugar estava me dando arrepios. Comecei a procurar por aquele relógio, mas senti a terra tremer um pouco. A princípio pensei que fosse minha imaginação, mas de repente algumas árvores começaram a cair e algo vinha na minha direção. Me apressei em tentar encontrar o relógio, porém um dinossauro gigantesco vinha em cima de mim. Ele tinha chifres e parecia ser um Torosaurus, um dinossauro do período cretáceo. Parecia estar fugindo de alguma coisa.
    Me escondi atrás de uma árvore até que ele fosse embora. Estava aliviado, mas ao mesmo tempo. Se eu estava realmente no período Cretáceo, significa que aquele relógio na verdade era o Chronos, e agora mais do que nunca teria que encontrá-lo, caso contrário ficaria preso ali. Voltei para a minha busca. Por sorte o dinossauro havia revirado as folhas e o Chronos estava lá, em meio as folhagens amarronzadas. Mal o peguei e na minha frente surgiu um Tyranossaurus.
    Tentei ficar imóvel, mas não adiantou, ele já havia percebido que eu estava ali. Sem alternativa corri o mais rápido que pude, mas ele me seguia incessantemente. Consegui despistá-lo e me esconder debaixo das raízes de uma grande árvore. Tentando manter a calma, peguei o Chronos e procurei uma forma dele me levar para casa. Percebi que havia um botão maior que os outros dois, onde uma corrente ficava presa. Devia tê-lo pressionado sem querer quando o peguei.
    Antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, o Tyranossaurus me encontrou. Corri desesperado, buscando um lugar seguro para apertar o botão. Se desse errado pelo menos não seria devorado. Um penhasco surgiu logo à frente. Eu estava encurralado e não me restava outra escolha senão pular e arriscar a sorte apertando o botão. Sem pensar muito me joguei no penhasco, fechei os olhos e apertei o botão. Senti uma pulsação no relógio e uma pressão enorme sobre o meu corpo, que me sufocava e de repente não senti mais nada. Quando acordei não estava mais naquela floresta, e também não estava no escritório.
    Olhei ao redor e reconheci o parque de Silkred. Eu estava perto de uma fonte e percebi que o penhasco havia se tornado aquele parque após os milhões de anos que se passaram. Me recompus e voltei para a casa dos meus pais, que não era muito longe dali. Tinha que da uma última olhada naquele lugar. Parei em frente a porta. Fiquei ali por alguns minutos, pensando. Se aquilo não tivesse acontecido, será que hoje seríamos uma família feliz? Por que aquilo tinha que acontecer justo com a minha família? Diante da minha impotência voltei para Lorent deixando para trás tudo o que me afligia.
    Já amanhecia quando eu entrei no meu apartamento. Estava tão cansado que pela primeira vez tive vontade de dormir. Joguei a mochila num canto e caí na cama. Dormi feito uma pedra e quando acordei assustado já havia perdido a primeira aula. Durante o almoço, Sally veio falar comigo. Parecia estar preocupada com o meu atraso já que eu sempre fui pontual.
    -Posso me sentar com você? – Disse Sally meio sem jeito
    -Claro, fique a vontade.
    Ela se sentou bem na minha frente. Eu ainda não tinha pedido e fiquei sem saber se olhava para ela ou para o cardápio em minhas mãos.
    -E então, como foi a viagem? Conseguiu resolver tudo o que queria? – Disse ela puxando assunto.
    -Consegui – Respondi fingindo escolher meu prato.
    -Pensei que só fosse voltar em dois dias.
    -É, mas eu consegui resolver tudo ontem mesmo.
    -Que bom não é, pelo menos você não precisou perder aulas.
    -Tem razão. Mas ainda assim perdi a 1ª de hoje.
    -Mas porque não me ligou quando chegou?
    -Cheguei muito tarde. Não quis incomodá-la.
    Depois dessa última fala um silêncio pairou entre nós até o fim do almoço. Não falamos nem para fazer os pedidos ou pedir a conta. Não entendi o que estava acontecendo entre nós. Antes passávamos horas conversando, mas agora parecemos dois estranhos. Mesmo assim o que eu sinto por ela está ficando cada vez maior.
    Passei a noite inteira terminando uma pesquisa sobre algumas relíquias egípcias e peguei no sono antes de terminá-la. Pela primeira vez em cinco anos tive um sonho e não um pesadelo. No sonho eu açodava na casa dos meus pais. Minha mãe, Sarah Riggs, me chamava para tomar café. Desci as escadas e na ponta da mesa estava o meu pai, lendo seu jornal como sempre fazia quando estava em casa. Ele dobrou o jornal e o pôs em cima da mesa. Ao lado dele o meu avô tomava uma xícara cheia de chá, resmungando por não poder tomar café. Na pequena TV que estava em cima do balcão, telejornal matutino dizia que iria fazer sol. Vendo aquela cena logo tudo de ruim que havia acontecido não passava de um pesadelo.
    Mas o alarme do meu celular me trouxe de volta a triste realidade em que vivo. Acordei e por um segundo desejei dormir para sempre. Mas não era possível. Nada mudaria o que aconteceu a minha família. Não era possível voltar no tempo. A lembrança do Chronos veio à minha cabeça como um trovão. Pequei a minha mochila e lá estava ele, junto com o diário do meu pai. E se eu o usasse para mudar o passado para salvar minha família? Será que funcionaria? Mesmo assim eu não sabia o motivo e nem como salvá-los. Mas o diário do meu pai poderia ter essas respostas.
    Sentei num canto iluminado e comecei a lê-lo. A cada página ficava mais ansioso, esperando encontrar algo que me mostrasse com agir. No diário havia fotos das excursões dele. Tudo o que ele descobriu sobre os Atlantis ele havia anotado ali, bem como o que ele encontrou sobre o Chronos.
    Em uma das páginas algo me chamou a atenção. Nela ele descrevia uma estranha proposta que recebeu de um homem misterioso:
    “Estava no meu escritório quando ele chegou. Sequer havia sido anunciado e entrou como se fosse o dono da casa. Perguntei como ele havia entrado e ele calmamente me respondeu que minha esposa havia aberto a porta para ele, mas ele não quis incomodá-la e por isso foi sozinho até lá. Era um tipo estranho. Alto, cabelos castanhos, olhos negros. Usava um paletó, mas não parecia um executivo. Ele se ofereceu para sentar e desconfiado eu permiti. Então perguntei o que ele queria. Ele respondeu que leu todos os meus livros e ficou fascinado com riqueza de detalhes com que eu descrevia os Atlantis. Ele fez muitos outros elogios e eu pedi para ele ir direto ao ponto. Ele disse que queria financiar minha pesquisa. Segundo ele, a sua empresa estaria interessada nas tecnologias desse povo e a minha pesquisa poderia ajudá-los a obtê-la. Eu deveria trabalhar para eles e reportar tudo o que encontrasse. Perguntei por que estava tão interessado em minhas pesquisas. Ele respondeu que desde a fundação, sua empresa vem procurando pelo Chronos e foram incapazes de encontrá-lo, e que eu era o único com pistas concretas. Quis saber o motivo de eles procurarem por aquele artefato, mas ele desconversou e disse que não era da minha conta, que eu só deveria encontrá-lo. Eu me recusei a fazer o papel de marionete nas mãos dele e ele simplesmente disse para eu pensar melhor, que ele entraria em contato. Ele me procurou outras vezes, mas a resposta se manteve. Na última vez que apareceu ele me ameaçou, dizendo que a minha decisão poderia afetar a minha família.”
    Era tudo o que eu precisava ler. Aquele homem tinha ligação com os assassinos dos meus pais. Eu me lembrava dele. Uma vez ele apareceu enquanto eu brincava com o meu pai no jardim. Pelo jeito que meu pai estava falando com ele, parecia estar bravo. Agora eu sabia o motivo. Ele queria o Chronos. Tudo se encaixava perfeitamente. O escritório do meu pai estava revirado. Provavelmente procuraram a pesquisa ali. Agora eu sabia o que fazer. Mas ainda faltava descobrir como usar o Chronos. Na pesquisa meu pai dizia não ter conseguido ativá-lo, mas eu fui transportado até a pré-história. Sabia que o botão maior ativava o Chronos, mas ainda faltava descobrir se era possível escolher uma data exata para que ele me levasse até lá.
    Dia e noite eu me concentrei em entender como o Chronos funcionava. Li e reli toda pesquisa do meu pai. Nem a faculdade me interessava mais. Tudo que eu queria era mudar o passado e salvar a minha família.
    Sally me ligou várias vezes e me deixou muitos recados. Parecia estar aflita com o meu sumiço. Um dia ela foi até meu apartamento. Bateu na porta e eu não atendi.
    -Ray, eu sei que você está ai! Abre a porta!
    Continuei calado, esperando que ela fosse embora. Ela não foi. Continuou batendo incessantemente, até que as batidas pararam. Ouvi um choro por trás da porta e de repente senti muito remorso. Nos dias que se seguiram ela não me ligou mais.
    A minha pesquisa aos poucos foi dando resultado. Percebi que os botões menores eram móveis e ficavam diversas posições, cada uma determinava o século, o ano e o dia. Não se podia alterar a hora, portando eu iria aparecer no mesmo horário que eu saísse no presente. Os círculos com os números romanos determinavam essas datas. Cada combinação dos botões e números me levaria a um lugar no passado. Agora só precisava escolher o momento certo para alterar, pois não poderia cometer nenhum erro. Não sabia se poderia alterar o mesmo acontecimento mais de uma vez e não estava disposto a arriscar.
    Na tarde seguinte bateram na porta de novo. Desta vez não era Sally. Eu olhei pelo olho mágico, mas não vi ninguém. Pensei que era engano, mas bateram de novo. Eu abri a porta e levei um soco bem no rosto. Cai no chão atordoado e vi Larry em pé na minha frente.
    -O que pensa que está fazendo? – Perguntei para ele.
    -Isso é por você ter feito a Sally chorar.
    Ele me ajudou a levantar. Pegou algo gelado na minha geladeira e me entregou
    -Toma isso, vai fazer melhorar. – Larry se sentou ao meu lado – E então, o que está acontecendo? Você sumiu. Sally te ligou muitas vezes, até deixou recados, mas você não retornou. Seu porteiro disse que há dias você não sai do seu apartamento e ontem não quis atendê-la. Ela chegou lá chorando. Porque tudo isso. Se você queria se afastar da gente, tudo bem, mas porque tratá-la tão mal?
    -É que... Estão acontecendo algumas coisas.
    -O que? É algo tão grande que não pode compartilhar com os amigos?
    -Não quero que se envolvam com os meus problemas.
    -É para isso que servem os amigos. Nós ficamos ao lado um do outro nos momentos mais difíceis. Vamos lá, compartilhe com gente esse peso nas suas costas.
    Olhei para ele sem jeito. Ele realmente parecia querer me ajudar. Respirei fundo e contei tudo para ele. Ele me ouviu incrédulo, acho que pensou que eu fosse maluco. Mas mesmo assim, fez um esforço para acreditar, já que eu nunca fui daquele de inventar histórias.
    -E então – Perguntou ele – Como vai fazer para impedir que sua família morra?
    -Eu entregarei para esse cara as pesquisas do meu pai
    Ele se espantou. Olhou para mim com uma cara de desaprovação.
    -Você não acha que seu pai queria que você protegesse as pesquisa dele?
    -De que adianta essa pesquisa se por causa dela meus pais foram mortos? Eu vou entregá-las para aquele homem e por um fim nisso.
    -Você que sabe, mas como vai fazer para entregar a pesquisa para aquele homem?
    -Vou esperar na frente da casa dos meus pais até ele sair. Ai eu entrego para ele. O problema é que eu não lembro muito bem do horário, então vou ter que ir bem cedo e esperar o dia inteiro se for preciso.
    Ele decidiu ir comigo. Peguei minha mochila, a pesquisa do meu pai e por último o Chronos. Já era noite quando entramos no carro e fomos até Silkred, até a casa dos meus pais. Paramos no ponto perto da casa. A rua estava deserta e a única coisa que podíamos ouvir era alguns gatos miando. Esperamos até o amanhecer. Larry ainda dormiu um pouco, mas eu não preguei o olho. Quando amanheceu, descemos do carro. Larry olhou para mim e perguntou:
    -Tem certeza que quer fazer isso?
    -Sim, agora não posso mais volta atrás.
    -Sabe que esse será um caminho sem volta. Se algo der errado você pode piorar as coisas.
    -Eu sei, mas não posso ficar pensando nisso agora.
    -Sabe usar isso não é?
    -Se pensar logicamente é bem fácil.
    Programei o Chronos para o dia exato que o homem procurou meu pai pela última vez. Faltava agora apenas apertar o botão.
    -Boa sorte – Disse Larry
    -Obrigado.
    Então eu apertei o botão e fui sugado para o passado. Pela primeira vez não desmaiei quando cruzei o tempo-espaço. Olhei e lá estava a casa dos meus pais, exatamente como era antes.
    Ninguém havia acordado ainda, nem mesmo os empregados. Estava tudo muito silencioso. Procurei um local onde pudesse observar a casa e ao mesmo tempo me manter escondido. Algumas horas se passaram e de repente de dentro da casa eu e meu pai saímos da casa. Ver aquela cena era algo estranho, pois eu estava parado há alguns metros de distância, mas tinha a nítida sensação de estar ali, brincando com o meu pai.
    Minutos depois um carro pára em frente a casa. Parecia ser bastante caro. De dentro dele saíram dois seguranças e um homem com pinta de executivo. Ele tinha na mão a tatuagem de uma serpente. Esse era o homem que havia ameaçado minha família. Ele entrou na casa e meu pai saiu de perto de mim, indo m direção ao homem. Eles discutiram e pouco depois e meu pai apontou para a porta, certamente estava mandando ele ir embora. O homem saiu com um sorriso no rosto, algo mito incomum para alguém que havia acabado de ser expulso de um lugar. Pouco depois ele começou a falar no telefone e eu me apressei em ir até o final da rua, pois ele iria passar por lá e era minha única chance de falar com ele.
    Corri o mais rápido que pude e quando cheguei ao fim da rua pude ver o carro se aproximar. Naquela hora só podia contar com a sorte. Parei em frente ao carro que freou bruscamente. Um dos seguranças saiu berrando:
    -Você está louco! Por acaso quer morrer!
    -Eu quero falar com o seu chefe. – Respondi com o coração batendo forte - Tenho algo que é do interesse dele.
    -Ele não tem nada para falar com você. Vai embora!
    -Ei, você!- Disse olhando para o homem dentro do carro – Está interessado no Chronos não é?
    -Eu te disse pra...
    -Espere Gordon. – Disse ele interrompendo o segurança e saindo do carro – O que você sabe sobre o Chronos?
    -Eu posso conseguir a pesquisa do Dr. Ronald Riggs para você.
    -Hum... Interessante. Entre no carro, vamos conversar em um lugar mais discreto.
    Ele me levou para um restaurante do outro lado da cidade, num bairro nobre. O restaurante estava vazio. Nos sentamos em uma mesa e os dois seguranças ficam em pé na nossa frente.
    -E então, o que você quer comigo? – Perguntou o homem friamente
    -Eu já disse, posso conseguir a pesquisa do Dr. Ronald Riggs para você. Sei que está interessado no Chronos.
    -Como sabe disso tudo? Por acaso trabalha com o Riggs?
    -Isso não vem ao caso. Mas eu tenho uma condição para lhe entregar a pesquisa.
    -Diga qual é. Saiba que eu aceito qualquer proposta.
    -Não se trata de dinheiro. Quero que fique longe da família Riggs. Sei que você os ameaçou e eu quero que os deixe em paz.
    -Só isso? Pode ficar tranqüilo garoto. Se eu conseguir o que eu quero aquela família não vai me interessar mais.
    -Você dá a sua palavra?
    -Por que está tão preocupado com eles?
    -Isso não importa.
    -Tudo bem, mas sabe que se estiver me enganando eu vou...
    -Eu estou com a pesquisa aqui – Tirei a pesquisa da mochila – Pode conferir se quiser.
    -Não acredito – Ele pegou o diário e o folheou. Seus olhos até brilharam enquanto olhava as páginas amareladas. – Após anos eu finalmente consegui. Garoto sabe o que acaba de fazer? Você está criando um novo mundo.
    -Que seja. –Levantei da mesa- Espero que cumpra com sua promessa.
    Sai do restaurante e fui até um beco deserto. Lá respirei fundo. Estava suando frio. Tive que segurar meus impulsos perto daquele cara. Peguei o Chronos no meu bolso. Por um segundo havia pensado em entregá-lo também, mas desisti quando lembrei que precisava dele para voltar para meu tempo. Apertei o botão e voltei para o presente.
    Quando abri os olhos algo estava diferente. Não sabia o que era, mas as ruas estavam mais desertas. De repente uma forte dor de cabeça tomou conta de mim e uma enorme quantidade de informações entrou em minha mente. Me joguei no chão me contorcendo de dor. Parecia que algo estava tentando apagar as minhas memórias. Por um segundo pensei que fosse me esquecer de tudo, mas lutei contra a dor e voltei a si. As lembranças estavam intactas, mas essas informações martelavam na minha cabeça como se quisessem me transmitir algo.
    Peguei um taxi e voltei para casa dos meus pais. No caminho percebi que as ruas estavam desertas e pareciam um pouco abandonadas. A fachada das lojas havia mudado e agora traziam um único emblema, como se fossem todos do mesmo dono. O taxi chegou à porta da casa dos meus pais. Algo estava estranho. Mesmo casa estando intacta, o jardim estava mal cuidado e a fachada com sinais de desgaste, parecia abandonada. Empurrei o portão e entrei. Abri a porta da casa e a sala estava arrumada, algo que não condizia com o estado da área externa. Fui até a cozinha. Pelo horário, minha mãe e Nancy, a nossa empregada, deveriam estar preparando o almoço.
    Ela estava na cozinha, perto do fogão. Sua cara estava abatida e logo a minha cabeça começou a doer e foi invadida por lembranças, meus pais brigando, minha mãe chorava e eu a estava consolando. De repente todos os momentos que passamos antes se tornaram vivas nas minhas lembranças.
    Ela olhou para mim. Seu cabelo castanho claro estava mal cuidado. Os olhos castanho-claros haviam perdido o brilho que possuía antes. Estava abatida, parecendo que há noites não dormia direito. Seu semblante mudou um pouco, parecia feliz por me ver.
    -Meu filho, que bom que chegou! –Disse ela me abraçando – Estava preocupada, você dormiu fora ontem.
    -É, eu dormi na casa do Larry.
    -Larry? Ele não está morando em outra cidade?
    Nessa hora me lembrei que ele havia se mudado antes daquilo ter acontecido. Como eu não me mudei para Lorent eu não tinha como estar na casa dele.
    -É, mas ele veio visitar uns parentes.
    -E como ele está?
    -Bem, mas sua vida amorosa é um fiasco.
    -Bom, o almoço vai demorar um pouco. Se quiser pode comer alguma coisa antes se não tiver tomado café.
    -Não, obrigado, já tomei café. Mas, onde está o meu pai?
    -Ray, acho melhor você não incomodá-lo. Ele está naqueles dias.
    -Como assim?
    -Ele está no escritório e não quer conversa com ninguém. Até jogou um prato de sopa em Nancy quando ela foi até lá. Espere até ele se acalmar mais.
    Não estava entendendo nada. Meu pai sempre foi um homem calmo, alegre. Por que ele agiria daquele jeito? Não me contentei e fui até lá. O escritório estava bagunçado. Livros espalhados pelo chão, papéis rasgados, móveis empoeirados e a estátua estava destruída. Atrás da mesa meu pai estava sentado na sua cadeira, de costas para mim, observado um quadro velho na parece.
    -Pai?
    Sem se virar para mim ele continuou olhando para a pintura. Me aproximei devagar e chamei novamente. Ele não respondeu. Algo dentro de mim esperava o pior, mas eu não sabia o porquê. Andei mais rápido e o vi sentado na cadeira, com seus olhos verdes fixados num retrato na parede. Estava magro, abatido e seus cabelos castanhos já estavam brancos em algumas partes.
    -Pai, o senhor está bem? – Perguntei assustado.
    Antes que pudesse esperar alguma resposta um dor insuportável tomou a minha cabeça e as lembranças do que aconteceu até ali vieram à tona. Quando dor passou me joguei de joelhos no chão. Finalmente tinha entendido o que aconteceu. Tudo estava tão claro na minha mente. O motivo pelo qual meu pai estava naquela situação. Não só o meu pai, mas a cidade, a casa. Tudo estava diferente. Tudo havia mudado. E era tudo culpa minha. Culpa da minha tolice em querer mudar aquilo que não podia ser mudado.

    Continua…

    3 comentários:

    1. Adorei a historia, muito legal xD
      Voces pretendem contianua-la ainda ? Faz tempo que nao tem atualização...

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    2. Poxa,continuem :(

      Acho que pararam né? que pena T_T

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